Existe um gesto que a galinha faz antes de encontrar qualquer coisa.
Ela raspa o chão. Sem saber o que vai aparecer. Sem um plano ou garantia de resultado. O movimento precede a descoberta, e é o próprio movimento que torna a descoberta possível.
É disso que se trata a CISCA.
Acreditamos, antes de tudo, que a ilustração é uma forma de conhecimento. Não é decoração ou complemento textual. Não é comunicação simplificada de ideias complexas para públicos que não conseguem lidar com elas. A ilustração é uma epistemologia, e como toda epistemologia, ela escolhe o que conta como real.
Uma imagem pode convocar o que está a desaparecer antes que desapareça. Pode dar corpo a subjectividades que os regimes extrativistas foram desenhados para apagar. Pode fazer presentes florestas tratadas como recursos e territórios tratados como paisagem de fundo. Por isso a ilustração crítica não documenta a violência ambiental-colonial. Ela questiona e abre novas perguntas.
O gesto que a galinha faz no território tem nome: ciscagem.
Ciscagem é investigação por contacto encarnado com o território. É não-linear, não separa quem investiga de onde investiga, não chega com uma pergunta fechada para colher uma resposta já esperada. É o oposto da extracção, da pressa, da ideia de que o conhecimento válido vem de fora para dentro, de cima para baixo, do centro para a periferia. A galinha não planeia o que vai encontrar. Ela confia no movimento. Nós também.
E é esse movimento que nos traz, sempre, à mesma ferida aberta:
O que fica no corpo de uma criança que cresceu num território que está a desaparecer?
Não sabemos a resposta. Mas sabemos que ela tem forma, cor e textura, e que encontrá-la exige um método que se parece mais com raspar o chão do que com seguir um protocolo.